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Minicurso de Propriedade Intelectual

Ligando os pontos: criatividade, propriedade intelectual e inovação

A Semana do Empreendedor 2015 é um evento anual organizado pelo Núcleo de Empreendedorismo do Inatel. Nesse evento ministrei um minicurso com foco na propriedade intelectual, utilizando como pano de fundo a criatividade e a inovação para evidenciar um ciclo virtuoso. Entre as questões abordadas a de que uma invenção pode vir a ser uma patente, mas nem toda patente se tornará uma inovação. O minicurso teve o objetivo de sensibilizar, informando a importância do sistema de inovação brasileiro e o papel da propriedade intelectual.

A criatividade, propriedade intelectual e inovação podem parecer assuntos distintos, mas estão relacionados e constituem um único processo para a geração de valor na sociedade. A criatividade pela sua capacidade de resolução de problemas, passa pela propriedade intelectual que é a legitimidade da capacidade inventiva e se realiza como inovação no mercado atendendo as necessidades de consumidores.

Neste curso preparei um material técnico e teórico caprichado, mas achei que faltava alguma coisa para ajudar a contextualizar. Então para criar pontes entre esses assuntos e explicar suas relações decidi contar três histórias que retratam o sucesso e também o insucesso, quando é muito comum encontrar invenções que não se tornam inovações.

A primeira história é de um menino que foi expulso da escola por ser considerado impertinente por seu professor. Por sorte, sua mãe era uma mulher culta e se esforçou para educa-lo em casa. Esse menino é o Thomas Edson, criador do fonógrafo, que aos 31 anos já era tido como um herói na América.

Certo dia foi convidado para uma expedição junto com cientistas da academia para observar um eclipse solar, ele era o único com três meses formais de estudo. Muitos desses cientistas falavam do desafio tecnológico da eletricidade, tema que já intrigava Edson a algum tempo. Reza a lenda que Edson ao vislumbrar o eclipse solar teve sua epifania sobre a luz elétrica.

Por acaso Edson já tinha criado uma caneta que substituiria o mimeografo, e a partir de alguns princípios dessa tecnologia ele teve certeza que seria capaz criar a lâmpada elétrica. Mas, acontece que Thomas Edson não inventou a luz elétrica, antes dele houveram 23 tentativas, desde 1808. Inclusive em 1878 um inventor inglês, J.W. Swan, fez um registro de patente muito funcional para lâmpada incandescente. Em 1877 já havia energia em paris e uma rua inteira era iluminada por lâmpadas de arco voltaico. Em 1876 também já havia sido apresentada a luz elétrica em uma feira na Filadélfia.

Mas ainda existiam desafios tecnológicos, a lâmpada devia ser incandescente, menor, mais segura e barata. Edson também sabia que o problema da luz elétrica era mais complexo, pois era necessário viabilizar um sistema de fornecimento de energia… a lâmpada de qualquer tecnologia sem um sistema adequado não se sustentaria.

Nesse momento Edson se mostra novamente um grande empreendedor. Convenceu os investidores do setor do gás e prometeu o projeto da lâmpada em quatro meses. Entrou em uma corrida tecnológica no desenvolvimento e fez diversas melhorias incrementais no projeto da lâmpada, trouxe um soprador de vidros da Alemanha, contratou um matemático e aperfeiçoou o vaco dentro da lâmpada.

Em sei meses apresentou o protótipo, mas as lâmpadas queimavam uma por uma em pouco tempo de uso. Edson foi difamado e chamado de nonsence. Em 1879 os investidores estavam impacientes, e ele sabia que não era o único na corrida tecnológica. Para curiosidade… Ele fumava 20 charutos baratos por dia, dormia apenas com morfina e estava quase cego de tanto ver filamentos queimarem.

Como conta a história, testou centenas de filamento incansavelmente… Depois de quinze meses obteve primeiro sucesso que durou 13h… E lançou a lâmpada em 1979.

 

Essa história traz muitos aprendizados sobre a criatividade, propriedade intelectual e a inovação…

Sobre a criatividade, nas palavras de Edson: “maldição, aqui não há regras – estamos a tentar realizar alguma coisa.” que reflete exatamente o pensamento divergente necessário para a proposição de muitas soluções para o mesmo problema. E “talento é 1% inspiração e 99% transpiração.”, que mostra que mais do que propor soluções é necessário possuir capacidade inventiva e de realização.

Sobre a propriedade intelectual, antes de fundar a General Eletrics, Edson se viu forçado a fazer uma parceria com o inglês J.W. Swan, pois depositou uma patente com solução técnica muito parecida com a do Swan. Juntos fundaram a Ediswan Motor Lamp Bulbs, anos depois Edson comprou as patentes de Swan, e então foi reconhecido mundialmente como o inventor da lâmpada elétrica.

Sobre a inovação, nas palavras de Edson: “A insatisfação é a principal motivadora do progresso.” A luz elétrica revolucionou a vida das pessoas tornando as noites mais produtivas, permitindo desfrutar do ambiente familiar e estudar a noite. A lâmpada elétrica foi uma inovação porque revolucionou a qualidade de vida das pessoas e permitiu o nascimento de novas tecnologias.

 

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Atividades oferecidas durante a Semana do Empreendedor 2016.

A segunda história é sobre um engenheiro naval que levantou a seguinte hipótese: A criatividade pode ser uma ciência exata? Para responder essa pergunta decidiu analisar dois milhões de patentes do mundo todo em busca de padrões criativos.

Com resultado, Genrich Altshuller criou o famoso método TRIZ, anagrama em russo que significa Teoria para a Resolução de Problemas. Seu trabalho reuniu um grande número de acadêmicos que dão continuidade na pesquisa da TRIZ no mundo todo até os dias de hoje.

Genrich Altshuller encontrou quarenta princípios universais de invenção, mas o principal resultado de seu trabalho, a meu ver, é o mapeamento de cinco níveis de criatividade encontrados em todas as patentes analisadas.

Os níveis um e dois somam 77% das patentes, que resolvem problemas rotineiros e trazem pequenas melhorias ao sistema. Por exemplo, apresentam variações sobre algo existente, como um relógio que pode ser de pulso e bolso, mecânico e automático, ou ainda com uma funcionalidade adicional como o despertador.

O nível três representa 18% das patentes, essas trazem melhorias significativas ao sistema e introduzem novos conhecimentos. Por exemplo, a introdução do relógio digital, que utiliza os conhecimentos da área de eletrônica na relojoaria.

O nível dois representa 4% das patentes, e estabelecem novos sistemas com a introdução de novos princípios. Por exemplo, o relógio atômico que revolucionou a precisão e permitiu grandes avanços na computação.

O nível um representa apenas 1% das patentes, e trata principalmente de descobertas cientificas. Muito mais raras, normalmente são fruto de estudos na fronteira do conhecimento. Por exemplo, o sistema de decodificação do DNA.

 

Essa história traz muitos aprendizados sobre a criatividade, propriedade intelectual e a inovação…

Sobre a criatividade, quanto mais nos aproximamos da fronteira do conhecimento e da técnica maiores serão as chances de descobertas mais significativas. A serendipidade, que é a descoberta afortunada feita aparentemente por acaso, é considerada como uma forma especial de criatividade. Muito comum no meio científico, prova que o acaso só favorece a mente preparada, parafraseando Louis Pasteur.

Sobre a propriedade intelectual,  a maioria das patentes estão concentrados na inovação incremental, porque é através da melhoria continua de processos e produtos que as organizações se mantém competitivas. No entanto, é através das inovações radicais que as organizações alcançam outros patamares de competitividade, deixando para trás antigas invenções.

Sobre a inovação, a TRIZ nos prova que é possível encontrar padrões para a resolução de problemas. Inclusive multinacionais pagam milhares de dólares por uma licença de software que utiliza a TRIZ como algorítimo. Mas, nada pode substituir a experiência humana no momento de definir um problema, pois somos o ponto de partida para a implementação das soluções.

 

A terceira e última história é sobre o inventor Dean Kamen. Em 2001 um grande corretor do mercado de ações declarou que uma inovação radical para o deslocamento urbano viria da empresa de Dean Kamen, e o produto era o Segway. Imagine uma forma de deslocamento individual, prática, intuitiva, não poluente e relativamente barata. Essa era a proposta do Segway, que recebeu um investimento de 100 milhões de dólares.

Infelizmente Dean Kamen negligenciou aspectos fundamentais para o sucesso de seu produto. Primeiro, foi no lançamento com a venda de apenas 30 mil unidades, o que não agradou aos investidores, pois não foi o necessário para recuperar os investimento inicial. Segundo, porque o Segway não podia andar nas ruas, pois não era regulamentado pelo “Detran” dos EUA. E para piorar, foi proibido de andar nas caçadas das principais cidades dos EUA.

 

Essa história traz muitos aprendizados sobre a criatividade, propriedade intelectual e a inovação…

Sobre a criatividade, a criatividade deve extrapolar o desenvolvimento de um produto, e também deve estar intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento do modelo de negócio. Um produto sem um modelo de negócio criativo será apenas um produto criativo, e o sucesso depende de um negócio criativo.

Sobre a propriedade intelectual,  as patentes expiram em um período de 20 anos e por isso o time to market é fundamental para as empresas. Muitos produtos lançados recentemente foram inventados décadas passadas, o que demonstra que o mercado precisa estar preparado para realizar uma grande inovação. Um exemplo são as capsulas de café patenteadas desde 1986, somente após 30 anos houve a maior aceitação de mercado. Certamente o Segway terá o mesmo futuro, dependerá de um cenário ambiental mais adequado a sua proposta de ruptura no modelo de transporte urbano.

Sobre a inovação, ainda hoje o Segway é vendido, principalmente para equipes de segurança de shopping centers. O Segway ocupa um mercado de nicho em estacionamentos, feiras, entre outros serviços que exigem rápido deslocamento. Também é possível ver a tecnologia do Segway licenciada em diversos outros produtos, principalmente na área da saúde com cadeiras de rodas super tecnológicas e robótica.

 

Espero que a leitura tenha sido agradável. Até mais!




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